Revista Época – Meditar para produzir

Funcionários da Mead Johnson Nutrition, uma empresa multinacional de produtos alimentícios, tem como um dos seus compromissos com seus funcionários é de acalmar mentes e turbinar desempenhos todos os dias, às 11h30 e às 16h30, a iluminação é reduzida em parte do 8º andar de um moderno prédio de escritórios em São Paulo.
Reunido numa sala, o grupo se senta e fecha os olhos. Pelos próximos 20 minutos, as metas de venda, o controle de orçamento e as novas estratégias de mercado dão lugar na cabeça a um mantra, a repetição de palavras recitadas mentalmente, de maneira contínua, até a mente aquietar, e os pensamentos, por assim dizer, silenciarem.
Desde que a prática foi adotada na Mead Johnson Nutrition, há dois anos, 42 dos 60 funcionários do escritório fizeram o curso, subsidiado pela empresa. “Aprimoramos nossa capacidade de lidar com situações estressantes”, diz o argentino Nestor Sequeiros, de 46 anos, presidente da empresa no Brasil e responsável por introduzir a meditação na rotina corporativa. som de mantras ou técnicas respiratórias, a meditação deixou os estúdios com cheiro de incenso para desbravar as salas acarpetadas das empresas.
No Google, o gigante americano de tecnologia, há até um guru próprio, Chade-Meng Tan, descoberto entre as baias coloridas da empresa, na Califórnia. Tan, engenheiro de formação, trabalhou oito anos desenvolvendo sistemas e usava o tempo livre que o Google dá aos funcionários para estudar comportamento humano, neurociência e filosofia budista. Suas pesquisas deram origem ao curso Procure dentro de você, um trocadilho com o famoso mecanismo de busca do Google para a internet. O curso ensina aos funcionários interessados as  técnicas de meditação e os conceitos de inteligência emocional reunidos por Tan. Eles servem para aumentar o bem-estar, a produtividade e turbinar o sucesso profissional.
Muitas empresas espalham salas de meditação por suas instalações”, diz o americano Soren Gordhamer, criador de uma série de conferências que faz sucesso no Vale do Silício, região da Califórnia onde nasceram algumas das mais influentes empresas de tecnologia da atualidade, como o próprio Google. Nos seminários, chamados Wisdom 2.0 (Sabedoria 2.0), organizados desde 2009, os executivos e empresários buscam soluções para resolver um paradoxo moderno: como as empresas, que precisam de funcionários conectados o tempo todo, devem ajudar seus empregados a se desligar de tanta tecnologia para se concentrar, produzir e ter ideias criativas? Nas discussões, a meditação é considerada uma das principais ferramentas. “Há um limite de informação que podemos absorver”, diz Gordhamer. “De vez em quando, é preciso esvaziar nosso sistema mental para recomeçar.”
Em laboratórios, equipados com máquinas para monitorar o cérebro, “A ciência mostrou que a meditação altera o organismo”, diz o neurocientista americano Richard Davidson, uma das referências mundiais na área e pesquisador da Universidade de Wisconsin-Madison. Ele ficou famoso ao colocar monges tibetanos em máquinas de ressonância magnética para mostrar que era mais ativa neles a região do cérebro responsável pelo raciocínio, pela atenção e pelo controle das emoções, conhecido como córtex pré-frontal.
Os estudos mais recentes sugerem que muitas das mudanças desencadeadas por esse treinamento mental se refletem em habilidades importantes para o sucesso profissional, como a rapidez para tomar decisões. Nasce daí o interesse das empresas na meditação. Em fevereiro, o americano Andrew Hafenbrack, pesquisador do Insead, uma escola de administração de empresas na França, concluiu que, depois de praticar apenas 15 minutos, os voluntários de seu estudo tinham mais facilidade de tomar decisões difíceis.
A meditação ensina a se concentrar, por isso é capaz de desenvolver a capacidade de tomar decisões, ter novas ideias. Pode até melhorar o resultado de estudantes em testes de memória e compreensão de texto, como mostrou um estudo da Universidade da Califórnia, publicado no ano passado. Ao prestarmos atenção ao que fazemos, conseguimos ir fundo na tarefa e realizá-la com mais eficiência. É o que o irlandês Stephen Little, que ajuda empresas brasileiras a adotar a meditação, chama de desligar o piloto automático. “A meditação evita que o funcionário trabalhe de maneira mecânica”, diz ele. .” Um estudo da bióloga Elisa Kozasa, pesquisadora do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, em São Paulo, mostra como isso acontece no cérebro. Ela pediu que 20 praticantes de meditação e 19 não praticantes realizassem uma tarefa que exigia concentração, enquanto eram submetidos a uma ressonância magnética.
O cérebro de quem meditava recrutava menos áreas para fazer a tarefa.
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